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As particularidades da saúde financeira das escolas

29 de julho de 2021

Que as escolas têm contas pesadas a pagar, isso é facilmente demonstrável. Uma escola de 500 alunos requer um imóvel que comporte bem mais que esse número. A infraestrutura também é toda ela particular, pelas salas de aula, o auditório, as quadras de esporte e etc. Em seguida vêm os impostos, que incidem basicamente sobre tudo e tem uma história complexa no país. Mas até aí, esse argumento vale para negócios de outras modalidades também. Que dor, então, que diz respeito ao peso das contas nas escolas é específica delas? É nisso que nossas pesquisas internas vêm dedicando tempo e investigação. 

Em primeiro lugar e dito de modo muito direto, as escolas têm problemas com fluxo de caixa. No decorrer de um mês, há períodos em que o caixa está cheio e há períodos que não. Isso decorre do fato de que as mensalidades são pagas numa data específica e são a maior fonte de receita das escolas, que possuem uma dificuldade compreensível de diversificar a receita. Quem aqui conhece uma escola que é também investidora noutro negócio? Que conta como sócia mantenedora dele? Esses são ainda arranjos pouco usuais, mas tudo indica que se farão cada vez mais presentes. 

Em cima do problema de todo um mês depender de apenas um dia para as escolas, há outro: a inadimplência das mensalidades. Que se desdobra numa segunda ocupação para a própria escola, estritamente não pedagógica, que é a ocupação da cobrança. Do cálculo de juros de mora, do cálculo do atraso. De exame e execução contratual. Só a partir desses dois problemas, uma fintech que estabiliza os pagamentos das mensalidades para uma escola – e elimina sua inadimplência – já se mostra essencial.  

Os outros atores que mantêm contratos com a escola acabam tendo uma vantagem sobre ela na hora de negociar (no jargão do “economês”: um maior poder de barganha). Uma vez que a escola está “pendurada” no seu dia D, qual seja, o do recebimento das mensalidades, ela ainda tem que lidar com os prazos de vencimento do aluguel e da folha de pagamento dos professores (que, aliás, tem previsão legal estabelecida pelo sindicato estadual dos professores correspondente, ou seja, é muito difícil ou até impossível de alterar). 

O que acaba acontecendo nesse cenário é que a escola tira do próprio dinheiro, todo mês, os valores para pagar contas extraordinárias e também as previstas. Do dinheiro que não conta como receita, mas também como lucro acumulado. Sendo assim, as pressões financeiras se fazem sempre presentes e se renovam, dando à gestão escolar um ambiente de aperto e correria para fechar as contas. Ambiente este que pode respingar nos professores, que em muitos casos também são gestores da própria escola, e colocam o fator essencial dela – a aprendizagem – sob uma cultura de pressão, de cobrança e de correria. Sendo que esse ambiente pode se naturalizar facilmente e se tornar como que o “normal” para toda escola particular. 

Ensino, aprendizagem e correria não combinam. Muito menos pressão. Tanto mais: financeira. Mas essa é a regra do ambiente escolar. Entendemos que a pressão vinda do sistema de ensino e numa medida adequada pode funcionar como estímulo. Afinal, o próprio sistema de ensino prevê exames de aprovação, e, por conseguinte, de reprovação. Fora ENEM, temos também o ENADE, e algumas escolas até prevêem processos seletivos para admitir alunos. Essa realidade está colocada a todos nós. Ela não deveria ser agravada por uma segunda realidade, a da saúde financeira das escolas, que afeta sem nenhuma dúvida o dia a dia dos professores (que são gestores, frequentemente); dos diretores, dos alunos e alunas 

Agradecemos a Fabíola Overrath, Diretora de Operações do Educbank, pelas contribuições feitas para a versão final do artigo.  

 

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