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Professor Braz: O diretor de escola e seu impacto na sociedade

05 de maio de 2021

Num sábado de manhã de fevereiro de 2020, tivemos a oportunidade de sermos recebidos para um café com o Professor Braz, em sua residência. Danilo Costa, fundador do Educbank, e Braz se conheceram em um evento da ARQFuturo, no INSPER, em São Paulo, no qual além dos dois também participaram Christian DunkerCristiane Muniz (diretora da Escola da Cidade), dentre outros educadores das mais diversas áreas.

O Professor Braz foi a pessoa que escolheu, há anos atrás, algo que ninguém queria: ser Diretor da Escola com um dos maiores índices de violência do Estado de São Paulo, na comunidade de Heliópolis. A seguir a nossa conversa, na qual ele compartilhou um pouco da sua experiência e aprendizados transformando a EMEF Campos Salles em um estudo de caso internacionalmente conhecido na educação básica.

Danilo Costa: Professor, em primeiro lugar, gostaríamos de saber o que você pensa da figura do empreendedor, e de como essa figura se encaixa no ensino e na educação básica?

Professor Braz: Um empreendedor é alguém que visa com um negócio uma transformação maior que ele, uma transformação coletiva. Nisso ele se distingue do simples empresário, que quer a constância do seu negócio e o lucro. Podemos dizer também que o empreendedor inova, e se ele não busca a inovação, talvez ele esteja mais perto de um empresário. O verdadeiro empreendedor é resistente e nunca perde a esperança. Seu objetivo tem que ter uma questão ética envolvida. Ele visa o bem — realmente? Se o empreendedor não coloca seu negócio a serviço de uma transformação coletiva, ele não está empreendendo nos termos que acredito. É compreensível que o empreendedor e o empresário tenham uma visão de lucro. Nisso o educador se distingue deles. Há muitos casos de empresários e empreendedores que buscam o lucro mesmo com condutas antiéticas. Imagine, por exemplo, um educador, professor de uma grande escola pública, que começa a dizer as opiniões dele, positivamente, a respeito de um candidato a vereador da comunidade em que essa escola está inserida — ambos estariam “empreendendo” em nome de uma candidatura? Ele está consciente de que pode estar fazendo campanha em sala de aula? Acho que todas as áreas podem instrumentalizar suas atividades para fins que geram conflitos éticos. Tanto empreendedor como educador precisam estar conscientes disso.

Danilo Costa: Quais diferenças você enxerga entre uma escola particular e uma escola pública?

Professor Braz: Infelizmente, hoje tanto a educação pública quanto a educação particular possuem tendências de instrumentalizar e de padronizar o ensino. Então, pra mim, é um pouco difícil falar dessa diferença. Não há uma preocupação com a singularidade de cada aluno, de saber que ele realmente existe, que ele tem uma história de vida e que nós, educadores, precisamos nos responsabilizar em alguma medida por ele.

Danilo Costa: E na sua opinião, o que faz uma escola realmente dar certo?

Professor Braz: A escola mais organizada é a melhor escola. Uma escola tem que ser um espaço organizado. Todos seus segmentos têm que estar articulados com vistas à aprendizagem. O diretor da escola tem um papel fundamental nisso. Costumo brincar que para uma escola dar certo o diretor precisa estar na porta, na hora de entrada e de saída dos alunos, conversando com os pais, ouvindo os problemas que eles relatam. Um diretor precisa colocar as pessoas juntas e trabalhar em prol de uma coletividade que consiga se reconhecer como tal e que entenda o valor de permanecer unida. Por isso um bom diretor também articula os grupos internos à escola, por meio do diálogo e da comunicação clara.

Danilo Costa: Professor Braz, nos conte um pouco da sua história.

Professor Braz: Fui criado em fazenda; tive um irmão que começou a vida como engraxate. Posso dizer que comi o pão que o diabo amassou. Eu vivia na condição de agregado da fazenda do patrão com a minha família. Como nasci no município de Córrego das Cruzes, no interior de São Paulo, a escola mais próxima da fazenda que vivia como agregado era a de lá. Então eu tinha que me deslocar 12km a pé todos os dias para estudar. E aos sábados, eu caminhava 30km para visitar meus familiares em Córrego das Cruzes também. Terminado o meu colegial, fiquei apreensivo, pois não havia dinheiro para estudar noutra cidade. O que me levou ao serviço militar, na Academia de Força Aérea de Pirassununga. Na busca por me tornar um cadete. Foi então que vivi a minha primeira crise. As ordens vinham de cima pra baixo, e eu fui tratado como nunca imaginei ser tratado, com ordens e com autoritarismo. Isso me fez decidir, de vez, a não ser cadete e a sair da carreira militar. Eu não conseguia admitir aquela forma de tratamento hierárquico.Em seguida, relato tudo isso a um vigário da cidade em que estudei quando adolescente, que me conheceu na infância. Nós conversamos enquanto eu ainda estava na Academia da Aeronáutica. Eis que o vigário diz, “o seu lugar é o seminário meu filho”. Começo a estudar, então, filosofia e teologia no seminário. Passo anos lá. Até que minha consciência começa a mostrar que o seminário não era pra mim. Eu tinha a intenção de namorar, eu gostava de ir às festas com as funcionárias do próprio seminário, até que fui chamado pelo padre, superior, à época, e tivemos uma conversa que me fez decidir sair.

Saí para começar tudo do zero. Como eu tinha recebido a formação em filosofia, comecei a procurar escolas para dar aula. Por recomendação, cheguei a entrar num colégio de padres, mas também decidi sair, por questões de um modo ou de outro, políticas. Cheguei a passar 14 dias consecutivos na fila da Secretaria da Educação, saindo só para comer, para conseguir dar aulas em qualquer escola que me chamasse. Por fim, depois de muitos anos de sala de aula, tomei uma das decisões mais importantes da minha vida, acreditado pela minha esposa. Decidi me tornar diretor de escola. Mas não de qualquer escola, mas sim da escola cuja comunidade, eu bem sabia, era muito parecida com a comunidade em que nasci. Estudei muito para ser aprovado em concurso para diretor de escola municipal, e durante a chamada do concurso, escolhi a Escola Presidente Campos Salles, na comunidade de Heliópolis. Lembro que o servidor que me atendeu na chamada do concurso me disse com todas as palavras: “Não escolha essa escola de jeito nenhum. Não vá pra ela.” E foi justamente para essa escola que eu escolhi ir. Afinal, eu procurei uma comunidade que havia passado pelos mesmos problemas que a minha. E também porque dava para ir a pé de casa.

Danilo Costa: Quais são as suas fontes de inspiração mais duradouras? São livros? São pessoas?

Professor Braz: Com certeza, o meu pai. O meu pai foi a única pessoa de sua comunidade e da fazenda, para além dos filhos do patrão, que fez questão de pôr o filho na escola. Aquilo era um motivo de grande orgulho pra ele, e ele gostava de contar para as outras famílias que eu estava na escola. O fato se tornou tão público que pessoas de todos os cantos da região iam até à nossa casa para ditarem cartas enquanto eu as escrevia para eles. Com oito anos de idade, então, eu escrevia cartas para quem não sabia escrever. E isso causou uma grande admiração no meu pai. Com certeza esse foi um dos fatos mais importantes para que eu chegasse onde cheguei hoje. Um livro que me marcou também foi “A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”, de Rubem Alves.

Danilo Costa: Como o Sr. Conheceu a Escola da Ponte?

Professor Braz: Depois da primeira caminhada da paz de Heliópolis, recebi todo tipo de contato. Um deles, muito gentilmente, vindo do Gilberto Dimenstein, me apresentou uma pós graduação que tratava justamente de escolas comunitárias. E um dos maiores exemplos de escolas assim é ainda a Escola da Ponte, em Portugal. Foi aí que a conheci. O meu trabalho de conclusão de curso foi sobre ela. Os fatos mais conhecidos sobre a Escola da Ponte hoje já estão bem difundidos: uma escola sem seriação (sem séries); sem paredes, e com 187 alunos que trabalham sempre em grupo.

Danilo Costa: Por que você escolheu ser diretor de escola?

Professor Braz: Por que eu sou diretor? Por causa da minha mulher, Arlete. Ela cursou pedagogia e disse para eu fazer o mesmo. Mas o fato mais importante mesmo foi a comunidade e a escola dessa comunidade que eu escolhi ser diretor. A origem das famílias era semelhante à minha. Eu queria encarar os problemas de frente. O medo da gente mata mais que a coragem.

Danilo Costa: Professor, obrigado pelas palavras e pela experiência compartilhada. Por último, que leituras e que escolas você indicaria aos educadores para entendermos melhor os projetos pedagógicos que visam uma transformação social, coletiva?

Professor Braz: Há uma tese de doutorado sobre o caso da nossa escola, ela se chama “A vivência da cidadania desde a infância como o inédito viável: sabores e saberes da experiência da EMEF Presidente Campos Salles.” A escola Parque, em Salvador, é um exemplo interessante de se conhecer. O meu trabalho de conclusão de curso na pós graduação em Escolas Comunitárias da Universidade Anhembi Morumbi, intitulado “Implementação de uma Metodologia de Ensino com Base nos Princípios da Escola da Ponte” pode ser encontrado na Internet também.

 

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